Prólogo
Naquela sexta feira, 26 de Fevereiro de 1999 a cidade estava em festa era o mês do carnaval, mas André não estava bem. Naquela manhã ele acompanhava o funeral do pai adotivo que falecera em um acidente enquanto construía uma parte do prédio da prefeitura daquele município. O desespero e a aflição tomavam conta dos seus olhos, aquilo era um dos momentos mais difíceis pelo qual André estava passando. A perda do pai adotivo era algo que ele jamais conseguiu superar. Diante da urna que conservava a última imagem do pai, André segurou a mão de sua mãe e compartilharam daquela dor insuportável que aterrorizava a vida daquela família abalada por uma morte inesperada. Os irmãos de André não estavam lá, Marta preferiu deixar os filhos em casa, eram jovens de mais para ver aquela cena de tristeza. Enquanto o mundo brincava, o tempo passava André não enxergava nada a não ser uma nuvem cinza ao seu redor e um silencio dentro do seu próprio ser. As últimas homenagens estavam sendo feitas e abraços de familiares e amigos era a única coisa que confortava André e a pobre da Marta que de tanto chorar não havia mais lagrimas em seus olhos, apenas o indicio da tristeza que queimava dentro do seu coração. André pegou o ramo de flores que estavam em sua mão as beijou e junto com um cordão de prata que portava a medalha no formato de uma corujinha jogou-as no caixão do pai, e em um desabafo profundo ele declarou:
- Pai eu nunca vou te esquecer!
Aquelas palavras foram as mais verdadeiras e profundas que André pronunciara em todo aquele tempo. O tempo ruim estava para acontecer, mas não era aquele chuvisco que caíra logo depois que o enterro aconteceu, era outro mal tempo que André tivera que enfrenta tarde depois. Antônio queria ver o filho entrar para faculdade de Biologia que era o grande sonho do menino, para isso André só precisava estudar, apesar de não ser o verdadeiro pai, Antônio amava aquele filho e daria a vida para não deixar que ele enfrentasse dificuldades, porém sempre ensinou ao filho a lutar por aquilo que se deseja, a ser honesto e a fazer o bem sempre, sem esperar nada em troca.
Sem o pai para cuidar da família, André precisou ser forte e tornou-se muito cedo uma pessoa madura e responsável para cuidar da mãe e dos irmãos que mais uma vez eram órfãos de pai. André sempre foi marcado pela ausência do seu verdadeiro pai, ele havia abandonando Marta logo que nasceu Alan o filho caçula. André já tinha oito anos quando isso aconteceu. Ele não trocou nenhuma palavra com seu pai, pois ele saiu na madrugada e apenas despediu-se de Eduardo o outro filho de Marta. Aquela ferida nunca se cicatrizou no coração de André e por isso ele aprendeu a amar o pai adotivo mais do que amava o seu próprio pai. André conseguiu terminar com muito esforço uma lanchonete que seu pai Antônio havia começado antes de ter falecido, era o desejo de a família montar o seu próprio negócio. André acreditava que terminar aquilo que seu pai deixara seria muito útil para toda a família.
Porém a família não tinha dinheiro suficiente para fazer aquilo, e como determinado pela justiça do município. A prefeitura teve que entrar com recursos para ajudá-los. Quando a lanchonete ficou pronta, André pôs o nome de
Petisco... Era o nome que o pai daria a lanchonete se tivesse vivo. Todos os dias André e mais um amigo seu iam para a lanchonete e lá trabalhavam o dia todo fazendo apenas intervalo no almoço. Dois anos depois André entrou para a faculdade de Biologia e passou a estudar a noite. O tempo passou a ficar mais escasso e André percebeu que aquilo estava lhe consumido cruelmente, mas era ele o alicerce da família e não podia desistir do trabalho nem tampouco da faculdade que sempre foi o sonho do seu pai. Mas a vida nunca é um mar de rosas, e os problemas sempre irão existir para tentar nos derrubar e para isso devemos ser fortes e não podemos desistir, não podemos deixar de perder o sorriso do rosto e a alegria que nos fortalece. Após algum tempo o seu irmão do meio, Eduardo envolveu-se com drogas, a mãe por saber disso entrara em depressão. O irmão caçula sem poder receber atenção da mesma, também estava tendo dificuldades no aprendizado escolar.
André lutava para não perder a faculdade e ainda tinha que tomar conta do lanche. Marta ainda abalada pela perda do marido sofria com as confusões causadas por Eduardo o filho do meio. Ele deixou de freqüentar a escola onde cursava o primeiro ano do ensino médio e após suas longas noitadas na rua, sempre que voltava para casa, quando voltava... Ele chegava causando tumulto e sempre brigava com a mãe e com os irmãos. André o mais velho, tinha agora 21 anos mais segurava as provocações do irmão para não ver Marta sofrer mais do que já sofria.
A família que já enfrentava uma avalanche de crise, um acidente com Eduardo só agravara ainda mais aquela situação. Alguém deveria assumir ainda mais as responsabilidades da casa e então André nunca mais pôde ser o mesmo. Os seus problemas pessoais em adição aos problemas da família o levaram ao ponto de tentar suicídio, mas por um pequeno milagre André foi resgatado da morte.
Todos os dias, sempre que André se dispunha de tempo em seu computador ele deixava marcas de uma luta que parecia não ter fim, tudo escrito e escondido em um arquivo pessoal onde ninguém poderia ter acesso, pelo menos era o que ele acreditava. Quase dez anos depois sua história ganhou vida e o mundo inteiro pôde lhe aplaudir de perto.